Casa Branca (Divulgação)
A prisão do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, pelo governo dos Estados Unidos, no último sábado (3), pode gerar impactos relevantes no cenário internacional e abrir um precedente grave nas relações entre os países. A avaliação é do professor de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) Daniel Coronel, em entrevista ao programa Bom Dia, Cidade!, da Rádio CDN, nesta segunda-feira (5). Segundo o docente, apesar de Maduro comandar um regime ditatorial, a ação norte-americana desrespeita normas do Direito Internacional Público e está associada a interesses econômicos, especialmente ligados ao petróleo.
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De acordo com informações divulgadas pelo governo norte-americano, Maduro foi acusado de envolvimento com tráfico de drogas, associação ao tráfico e atos de terrorismo, tendo sido capturado junto com a esposa e levado para Nova York, onde deve ser julgado.
Ditadura e soberania nacional
Para Coronel, é necessário reconhecer o caráter autoritário do governo venezuelano, sem relativizações, mas também ponderar os limites da atuação internacional.
— Temos que deixar claro: Nicolás Maduro era um ditador e é preciso falar isso sem medo. Assim como Daniel Ortega, na Nicarágua, e Cuba, são regimes ditatoriais que estão levando sua população à fome. Mais de 70% da população da Venezuela vive abaixo da linha da pobreza — afirmou.
No entanto, o professor ressaltou que isso não legitima a intervenção externa:
— Isso não dá o direito de um outro Estado infringir normas do Direito Internacional Público. Os Estados Unidos desrespeitaram a soberania da Venezuela.
Petróleo no centro da disputa
Segundo o docente da UFSM, os interesses econômicos estão no centro da ação norte-americana, especialmente em relação às reservas de petróleo venezuelanas, as maiores comprovadas do mundo.
— A Venezuela concentra cerca de 303 bilhões de barris em reservas comprovadas de petróleo. Só que, devido à baixa intensidade tecnológica e ao deleite dos últimos anos, essa capacidade não vem sendo aproveitada como deveria. Os Estados Unidos já estão de olho nisso — explicou.
Coronel avalia que a entrada de empresas norte-americanas no setor energético venezuelano pode ter reflexos globais:
— Com isso, vai se reduzir drasticamente o preço do petróleo, que é um insumo importante para vários produtos, ajudando a economia americana a ter um melhor crescimento econômico nos próximos anos.
Enfraquecimento de organismos internacionais
O professor também apontou um enfraquecimento do papel da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Conselho de Segurança, diante da falta de uma reação mais firme da comunidade internacional.
— Se a gente observa os principais jornais do mundo, nenhum fez uma defesa enfática da Venezuela. O que vemos são mensagens de solidariedade aqui ou acolá, mas nenhuma ação concreta, o que desmoraliza os organismos internacionais — ponderou.
Conforme Coronel, o episódio se insere em um contexto mais amplo de rearranjo geopolítico.
— Os Estados Unidos querem fixar sua influência na América Latina. (Trump) Já deixou claro que a Colômbia pode ser um alvo, Cuba pode ser um outro alvo. A Rússia está focada na Ucrânia, e a China na questão de Taiwan. Cada grande ator direciona seu foco para um território específico — concluiu.
A prisão e o julgamento de Nicolás Maduro, bem como os possíveis impactos econômicos e políticos do episódio devem seguir em destaque nos próximos dias, com novos desdobramentos no cenário internacional.
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